quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Existe vida após o assédio moral...

Dedico este testemunho com sincera gratidão à Adriana, Regina, Rose Mary, Zaíra, meu Pai e meu amado Celso, Pessoas cheias de luz que guiam com amor todos os que passam pelos seus caminhos


Me chamo Sandra Küster, sou bibliotecária, tenho 45 anos e hoje finalmente contarei minha história, não para fazer alarde ou me colocar em posição de vítima (coisa que não sou), mas porque acredito que o meu testemunho pode ajudar outras pessoas a saírem deste fenômeno nefasto chamado Assédio Moral. Não tenho nada de especial, não tenho cargo, nem sobrenome importante, aos olhos de muitos não sou nada, mas aos olhos de Deus, sei que sou sua filha amada.

Além de mim, todas as pessoas que participaram das inúmeras situações negativas que me envolveram desde antes mesmo de eu chegar aqui, sabem o que fizeram, tenho certeza que cometeram suas ações conscientes e sabiam o que estavam fazendo... 

Deixo para eles e também para os de bom coração que muito ouviram, testemunharam e covardemente silenciaram, a certeza de que eu perdoei a todos e não desejo mal a ninguém, mas eles sabem como eu, que existe um Deus e Ele tudo sabe, tudo vê e a ele pertence a verdadeira justiça. Eu Confio Nele.

Com certeza muitos dirão que eu minto, que invento, que aumento, com relação a isso a única coisa que posso afirmar é: que somente eu sei o que passei, o que vivi, o que ouvi e que quem desejar ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, que o façam! Quem convive comigo e me conhece sabe que digo a mais pura verdade e ela me liberta... Minha consciência está tranquila e em paz e isso, é o que realmente importa: não fui eu que prejudiquei ninguém, graças a Deus.

Me formei numa das melhores faculdades de Biblioteconomia de São Paulo. Desde o primeiro momento amei minha profissão. A Biblioteconomia foi para mim como uma religião, encontrei nela minha vocação e tudo que eu ansiava profissionalmente.

Tive durante muitos anos outra profissão muito boa e rentável, mas minha alma clamava por mais, eu queria ser luz na vida das pessoas, queria fazer algo notável com meu trabalho e me sentia feliz por minha escolha.

Existe alguma dúvida no fato de que os livros podem mudar a vida das pessoas? Existem milhares de histórias que comprovam isso, não havia por quê duvidar. Mas como ouvi outro dia: "a euforia de uma nova fase da vida, pode não durar até a primeira segunda-feira repleta de problemas" e assim descobri que mudar o mundo, não seria tão fácil como eu imaginava... 

Eu tinha 32 anos quando me formei, me divorciei, me demiti e me mudei de São Paulo. Foram tempos difíceis e tristes em que meu aprendizado sobre a "vida real" começou a tomar corpo. Estava casada há mais de sete anos e meu companheiro decidiu seguir por outras direções então, ficamos eu e minha pequenina na época com três anos.

Na esperança e  com fé de que dias melhores viriam tive coragem e não desisti de acreditar, optei por perseverar e lutar por nossa felicidade.

Sonhava em trabalhar em uma biblioteca pública, um tipo de biblioteca que se tornou para mim a menina dos meus olhos e assim iniciei minha caminhada rumo à minha nova vida, nesta época, apesar da satisfação da recente graduação eu me sentia muito pequena, tão desfavorecida e mal-amada. 

Quando terminamos um relacionamento de tantos anos, não tem como ser diferente, as emoções ficam à flor da pele e nos tornamos sensíveis, frágeis e não bastasse isso havia a preocupação de que nada acontecesse com a filha pequena. Eu só desejava que ela crescesse sadia e feliz, busquei coragem onde já não havia nada para tirar e fui combater o meu combate.

Cheguei ao Espírito Santo com a minha filha e uma mala, essas eram as duas armas com as quais eu acreditava que iria vencer todas minhas batalhas. 

De repente algo inusitado aconteceu e de uma forma totalmente surpreendente encontrei um novo amor, me apaixonei à primeira vista, assim no período de um ano eu me divorciei, fiz um concurso e passei, me organizei para casar novamente e para minha total surpresa, dias antes do casamento fui chamada para ocupar aqui minha tão sonhada colocação como bibliotecária.

Era muita alegria para uma pessoa só, um novo estado, um novo lar, uma nova vida, novo emprego, Deus me carregava nos braços, porém na verdade, Ele por meio de todas estas mudanças em minha vida me preparava para grandes lições que eu precisava aprender e uma longa caminhada rumo aos sonhos que Ele tinha para mim se iniciou.

Quando se está plena de felicidade e realizações ficamos cegos e perdemos a noção da realidade, fui uma presa fácil caminhando inocente para o abate.

Existe uma linha muito tênue entre assédio e comportamentos ditos "normais" num ambiente de trabalho, muitas vezes por desconhecimento (há mais de 10 anos atrás pouco se falava sobre assédio moral) muitas coisas aconteciam com as pessoas sem que as mesmas sequer se dessem conta de que na verdade o que elas estavam sofrendo era assédio moral.

E não bastasse isso, a própria pessoa que passa por esta situação muitas vezes se coloca em posição de culpado, se sente incapaz e assim, o fenômeno só fortalece os sentimentos de baixa estima, sensação de incompetência e consequentemente no pacote está incluso a desvalorização pessoal.

De fato e propriamente dita a única coisa que eu acho que fiz de concreto para chegar onde cheguei é passar no concurso público, esse foi meu maior "crime". Em cidades pequenas existe um sentimento, alguns chamam de "cultura", algo muito arraigado que dá a sensação de posse para as pessoas nativas, a territorialidade impera e aqui infelizmente isso é muito forte. Você se sente estrangeiro em seu próprio país.

Eu era a pessoa que chegou e roubou o lugar de uma "filha da terra". Eu em momento algum sequer pensei na possibilidade de estar atrapalhando a vida e a felicidade de alguém, queria somar, agregar valor.... Eu só pensava em ser uma excelente profissional e trabalhar, dar o meu melhor, "fazer algo notável na vida das pessoas". Que mal que uma pessoa que pensa assim pode causar para alguém?

Porém no terreno fértil do "assédio moral" isso não é um dom ou uma dádiva, ao contrário, é uma total desgraça, tanto para a vítima quanto para os assediadores. Para quem comete o assédio moral não existe nada pior do que um profissional eficiente, alguém que deseja mudanças, alguém criativo e que tenha vontade de fazer algo diferente... Alguém com estas características automaticamente se torna um grande inimigo, as pessoas não querem te conhecer, saber como você é de verdade. Querem que você desista, vá embora.

Quem vive pautado pela "lei do mínimo esforço" dificilmente consegue se harmonizar e ficar tranquilo na presença de alguém que cultua a eficiência e a proatividade. Um bom profissional, que tenha qualidades e deseja trabalhar é quase um criminoso, um inimigo que deve ser abatido...

As situações que vivenciei, presenciei e das quais fui vítima foram tão surreais que até mesmo eu, quando olho para trás e relembro custo acreditar no que passei, foram dias e dias de uma tortura psicológica capazes de destruir até o mais corajoso guerreiro. 

Muitas vezes quando comentava com amigos e familiares coisas que aconteciam comigo e me tiravam a paz, buscando explicações, consolo e apoio quase sempre ouvia de todos: volta para sua casa, sua família, sai deste lugar, o que você ainda está fazendo ai? Eu mesma depois de um certo tempo e quando me dei conta do que acontecia comigo de verdade (o que levou cerca de 4 anos para acontecer) não conseguia entender como eu aguentava tanta maldade.

Mas nem sempre a vida permite que tomemos decisões por nossa própria vontade e os próprios sentimentos agora confusos e as inseguranças que desenvolvemos nos impedem de agir. 

O assédio moral é maquiavélico e silenciosamente paralisa sua vítima e foi assim que eu permaneci por muitos anos. Com o tempo você começa a congelar sentimentos, a vida passa a ter um peso enorme que sua alma quase não suporta e tudo que você pensa é só em sobreviver mais um dia...

Não existe mais esta coisa de ter esperanças, dias melhores, projetos, vida em harmonia, nada. A única coisa que desejamos é ter paz e conseguir sobreviver mais um dia. Assim tudo passa a ser automatizado, não há mais emoções, envolvimento, acolhimento, as luzes são apagadas e a vida é ligada no automático.

A pessoa que sofre assédio moral é uma pessoa estraçalhada. Seu coração é amputado do seu peito e se ainda tem a sorte como eu tive (graças a Deus) de ter uma família para te amparar muito que bem, ainda existirá ali uma centelha que permitirá vislumbrar um raio de esperança, mas a verdade é que muitas pessoas, quando são vítimas deste fenômeno nefasto, conseguem deteriorar tanto o seu próprio existir que até mesmo seus relacionamentos mais caros e importantes podem ser desfeitos devido às dificuldades que são vivenciadas no seu dia-a-dia profissional.

Eu vivi muito tempo às custas de terapia, acompanhada por psicólogo, quase dois anos à base de remédios, engordei, tive insônia, palpitações, queda acentuada de cabelos e além disso, desenvolvi um problema de pele que tentei tratar durante muito tempo em vão e depois descobri se tratar de uma Psoríase. 

Para quem é vítima de assédio moral a família tem um papel fundamental, ela passa a ser o único e melhor refúgio para os problemas e dificuldades que o ambiente de trabalho oferece... Quem tem uma família, tem carinho, afeto e arranca de onde já não sai mais nada coragem para perseverar.

Hoje sei que se consegui manter, mesmo que minimamente, minha sanidade mental e física foi porque tive amor e compreensão quando entrava pela porta de casa, mas sei que nem todos têm a mesma sorte que eu e muitas pessoas se tornam tão complicadas e sofridas que nem a própria família suporta. Eu tive muita sorte, mas meus filhos nem tanto... 

Hoje quando analiso meu passado e vejo como eu era, como agi com eles, o que me tornei devido ao assédio moral vivido anos e diariamente e o que eles foram obrigados, mesmo sem ter condições e idade para entender, aceitar me culpo muito, pois se eu tivesse sido uma pessoa realizada profissionalmente (o que eu tinha tudo para ser) e equilibrada teria sido uma mãe muito melhor e em muitos momentos estive impossibilitada de dar o meu melhor como mãe devido ao grande período de depressão e apatia emocional em que eu me afundei. Espero que algum dia eu possa compensá-los por isso e eles possam me perdoar...

Há cerca de três anos eu me cansei de andar para os lados e decidi tentar ser feliz. Enfiei dentro de um quarto no fundo da alma toda minha dor e o que restou de uma mistura imensa de sentimentos negativos repletos de tristeza e medo. Finalmente tomei coragem para correr atrás da minha felicidade, pois não havia outra opção.

Uma parte enorme de mim já estava morta e sepultada, não havia mais o que fazer, então escolhi decretar minha felicidade e passei a viver em paz com o que eu ainda possuía: minha essência, minha família.

A terapia de grupo feita por uma excelente profissional (pela qual tenho profunda gratidão) me ajudou muito, pois a convivência com pessoas diferentes de mim, com problemas ora mais complicados, ora menos, me mostrou que eu poderia ser feliz, reconstruir meus caminhos e depois de um tempo de certa calma consegui me reinventar em alguns aspectos, mas eu sentia um vazio na alma, faltava um algo a mais...

As situações negativas não deixaram de acontecer, ainda hoje vivo em um contexto de sentimentos desagradáveis e estresse desnecessários, mas a diferença é que eu consegui anular isso, como disse, fechei tudo num quarto escuro e não abro a porta, isolei a tristeza e ela habita em mim, mas não me aconselha mais...

Me conscientizei de que eu era pequena diante de tantas coisas erradas, as quais eu não tinha "poder" para mudar, não poderia fazer nada sozinha. Descobri que não tinha condições, pelo menos não até aquele momento de "mudar o mundo", porém mais importante que isso, descobri que na verdade o que eu precisava primeiro era:"me mudar", mudar minha realidade, minha visão da vida, mudar minha postura para finalmente alcançar tudo de bom que estava perto, ao meu redor...

Não adianta querer mudar o mundo enquanto nós permanecemos os mesmos de sempre... Entendi que antes de qualquer coisa eu precisava ser diferente, para conseguir fazer algo diferente.

Durante muitos anos eu gritei, tive raiva, ódio, perdi noites derramando lágrimas silenciosas e mesmo acompanhada me sentia muito sozinha, eu não conseguia entender nada, mas um dia tudo mudou...

Como sou filha amada do Senhor, hoje sei que Ele nunca nos abandona, então ele me alcançou com seu infinito amor e eu consegui me libertar da prisão que eu permiti que construíssem para eu viver e me isolar.

Foi um gesto perseverante de uma Amiga verdadeira que me tirou do meu deserto e me levou para a Igreja Batista e a partir deste dia, nunca mais me senti só.

Esse é outro fator de fundamental importância para quem vive em situação de assédio moral. Só é possível sobreviver a isso e superar as dificuldades quando se encontra além do apoio psicológico e emocional também o espiritual, diria que este, antes dos outros é o primordial...

Uma pessoa que está forjada e amparada na fé tem tudo. O problema é que nos descuidamos, esquecemos de Quem somos filhos e falhos nos deixamos levar pelas tempestades e uma vez perdidos dentro delas, dificilmente conseguimos sair sozinhos deste tormento chamado assédio moral.

Deus nos acalma, nos reconstrói e nos permite enxergar a vida com novos olhos e não há nada tão imenso e verdadeiro em nossas vidas quanto o amor de Deus por nós e isso precisa estar muito consciente em nosso caminhar, pois com Deus podemos tudo, sem ele, somos nada.

Achando que era auto-suficiente e que podia controlar tudo, me afastei Dele e permiti que o Ego, pessoas erradas, ruins e mal intencionadas tomassem conta da minha vida e a partir do momento que permiti que isso acontecesse eu perdi o controle das minhas emoções e do meu viver, desta forma, foi muito fácil o fenômeno do assédio se instalar e fazer morada em minha vida. 

Eu fiquei cega e perdida no turbilhão de emoções que dominaram minha existência, perdi o prumo e por pouco não perdi o que era mais importante para mim: minha família. Porém antes que isso acontecesse Deus me alcançou com seu amor, me acolheu e me mostrou quem eu era de verdade, restaurou minha identidade e meu propósito neste mundo.

Seu amor me deu coragem e eu pude finalmente reencontrar meu caminho e o que é melhor: ser novamente luz na vida das pessoas como eu sempre sonhei...

Eu sei que todos nós temos sonhos e desejamos muitas coisas na vida, isso são sentimentos naturais dos seres humanos, mas precisamos antes aprender e entender que acima dos nossos desejos há algo muito maior  e que nossos sonhos podem ser bons e lindos, mas os de Deus são maiores e melhores ainda por que ele só quer o melhor para nós e como qualquer Pai, deseja nossa felicidade, o que precisamos é aceitar que muitos momentos de tristeza nada mais são do que degraus que são usados para nos aprimorar e nos aproximar Dele.

Tem uma frase do Rubem Alves que eu gosto muito onde ele afirma que "Ostra feliz não faz Pérola".

Hoje eu posso olhar para trás e finalmente deixar o meu deserto, todos nós em muitos momentos passamos por ele, eles também são importantes, o que precisamos entender é que não devemos nunca desistir e perseverar na fé, pois apesar do mundo não querer nossa felicidade, Deus quer.

Obrigada Senhor, por esta página finalmente virada no livro da minha vida.

7 comentários:

  1. Muito bom texto, mas faltou especificar como se davam esses assédios para que as pessoas que lerem possam identificar em seus ambientes de trabalho também. Pois, assim como diz em seu texto, muitas vezes não percebemos a situação perversa em que nos encontramos até que as pessoas nos deixem ciente sobre a mesma.

    Você é realmente uma guerreira. Nunca se sinta menos do que isso <3
    Abraços e sucesso.

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    1. Oi Amigo anônimo! Como disse no final do texto, a página foi virada... Foram 11 anos, 11 anos... Já não me permito reviver mais nada relacionado a isso.

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  2. Muito importante o seu relato. Sou bibliotecário e também já fui vítima de assédio moral em uma instituição privada. O pior é descobrir que, depois de falar com um amigo advogado, perante à justiça dos homens, eu não poderia fazer nada, mas Deus me tirou desse lugar e me deu a colocação em um concurso que eu havia feito e eu pude, finalmente, me livrar deste lugar.

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  3. Passei por situação semelhante à sua. Também fui aprovada em um concurso público, lotada em uma cidade do interior, vítima de preconceito por ser de outra cidade, mal tratada... Enfim, passei por coisas horríveis que me levaram quase ao suicídio. Até pouco tempo não conseguia tocar no assunto porque caia aos prantos. Como você falou, a família, os amigos e a fé em Deus é que nós dá forças pra superar. Não formalizei uma denúncia por assédio mas pude contar com a ajuda de profissionais do RH e Serviço de Psicologia Aplicada da instituição que trabalho, foram muito eficientes dentro do possível. O pior é que ainda somos desmoralizados e algumas pessoas duvidam da verdade. Até hoje sou difamada na Instituição em que trabalho e fora dela( nosso universo de trabalho é bem pequeno)por causa das mentiras que meu assediador e seus colaboradores inventaram ao meu respeito. Hoje estou bem melhor. Dei a volta por cima mas nunca mais consegui ser a mesma pessoa que era antes do assédio, as sequelas ficam para sempre em nossa vida.

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  4. É amiga! Momentos difíceis! Te admiro muito, viu!!! Vejo você como modelo de pessoa. Estive com você em uma pequena parte desses longos 11anos. Sempre admirei o jeito que você lidava com as mais diversas situações. E mesmo passando por muitos problemas, ainda se preocupava em ajudar os outros. Agradeço à Deus todos os dias, por ter colocado você no meu caminho. Meu anjo aqui na terra. Obrigada por você existir. Graças à você, hoje sou uma pessoa e uma profissional melhor. És dona de um coração imenso. És a bondade em pessoa. Sinto muita saudade. Qualquer dia desses vou te visitar. Beijos para você e sua família, felicidade, saúde e paz...

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  5. Sandra, acho que deve ser o mal do século, pois também vivo nesta angustia de assédio moral.
    Beijos! Vilma

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