terça-feira, 21 de agosto de 2012

Somos herdeiros de nós mesmos


Há uns dias atrás eu estava como costumo dizer... “Melancólica”. São aqueles dias em que apesar de saber que recebi tudo na vida que uma pessoa precisa para ser feliz, ainda assim “sou capaz” de achar que é pouco, que falta algo... Me sinto vazia, daquele vazio que aceitamos crescer dentro de nós de forma tão estúpida e como já disse antes: nos faz esquecer de quem somos filhos...

Conversando com meu pai, como sempre faço nestes dias (em que permito que a tristeza me cerque), ouvi de sua boca várias frases para mim tão absurdas que a cada instante pensava: “Meu pai está cada dia mais doido...”. Minha mãe se estivesse aqui e nos ouvisse, certamente daria uma gostosa gargalhada, daquela inconfundível e que conhecemos bem.

Primeiro ele me perguntou, quem poderia me dar felicidade nesta vida, quem poderia me dar paz, levar harmonia para meu caminhar? 

Era tão óbvia a resposta que eu, de posse da minha enorrrrrrrrrrme sabedoria logo respondi: DEUS, SOMENTE DEUS!

– Ele então riu e carinhosamente me respondeu: E – R – R –A – D – O !

– Filha, a única pessoa ou ser que pode lhe fazer feliz é você mesma! Você é a única responsável pela sua felicidade e pela paz em sua vida. Só a partir do momento que você resolver de fato ser feliz e tornar sua vida harmoniosa é que encontrará a real felicidade.

Aí eu fui ficando cada vez mais intrigada porque seus questionamentos só iam piorando minha situação. Ele então me perguntou assim: 

Mas analisando a situação por outra perspectiva, você sabia que a melhor coisa da vida é viver sem Deus?  (Quando ele afirmou isso definitivamente, achei que meu pai estava ficando louco varrido).

Sim, ele continuou – porque uma pessoa sem Deus, pode tudo, vai se privar do quê e para quê? Por que se preocupar em fazer o bem, ser honesto, correto se não existe Deus em sua vida? Uma criança que o pai não se preocupa em mandá-la para escola, vai ficar feliz da vida. Para ela é um dia a mais em casa tranquila na frente da televisão ou pior ainda, na rua sem se ocupar com a “chatice” da escola. 

Mas note o detalhe: viver sem Deus, pode até parecer ser muito bom (à primeira vista), mas depois num futuro talvez não muito distante, as consequências podem ser trágicas. 

Porque na verdade uma pessoa pode até achar “perfeitamente normal” ela querer e viver sem Deus, mas não há nada pior para um ser humano, como filhos de Deus que somos, morrermos sem Ele, pois para um homem, morrer sem Deus no seu coração é como só ter passado pela vida, sem ter entendido de fato o que ela tinha de melhor, porque quando a vida se vai, para o homem só resta o que estiver guardado em seu coração, na sua alma e se assim for, o que restará para nós que só levamos aquilo que plantamos e colhemos, seja bom ou ruim.

Veja, quantos bons exemplos existem, de pessoas que souberam ser felizes e aproveitar a vida: Irmã Dulce, Gandhi, São Francisco de Assis, Martin Luther King, Chico Xavier, Santa Teresinha e tantos outros valorosos filhos de Deus, que não estiveram à passeio pela vida, mas sim vivendo em toda sua plenitude.

Quando vivemos com Deus, sabemos o que fazemos e quando vivemos sem Deus “achamos” que sabemos o que estamos fazendo. Sem Deus somos nada, porque Deus é tudo. Deus, por meio da nossa consciência tudo vê, tudo ouve, tudo pode e não adianta tentarmos fugir disso porque é ela que norteia o nosso existir. 

Tudo o que precisamos para vivermos felizes nesta vida, Deus já nos deu, cabe a nós lutarmos pela nossa felicidade. As ferramentas que recebemos podem nos levar ao céu ou ao inferno, tudo dependerá do caminho que escolhemos para trilhar...

Muitas vezes nos quedamos perplexos e atônitos com acontecimentos trágicos do dia a dia e nos questionamos a respeito da existência do poder e da justiça de Deus. Se uma menina é assassinada e violentada, cruelmente morta por outro ser, como entender que Deus estava ali e viu, ouviu seu choro, seu sofrimento e não fez nada para evitar tamanho sofrimento.

Estas respostas estão muito além dos nossos olhos e da nossa capacidade de entender porque só vemos até aquele instante, em que o ato violento era praticado e do qual tomamos ciência à distância, mas e o que aconteceu antes daquele dia, quem era aquela criança? O que aconteceu de fato em sua existência para ocasionar uma passagem tão trágica em sua vida?

Temos de partir do princípio de que se Deus é perfeito, bom e justo. Tudo ouve, tudo vê e tudo sabe e sendo assim, certamente não deixaria um inocente sofrer atoa, pagar sem dever. Para tudo que acontece nesta vida há uma explicação e “não cairá uma folha sequer da árvore, sem que o senhor seja servido”. 

Como um pai poderia oferecer um prato de estrume para um filho e de manjar para outro? Nenhum pai bom e amoroso em sã consciência, cometeria tamanha injustiça partindo do princípio que para um pai, seus filhos são todos iguais. 

E assim também nós somos para Deus, somos todos filhos queridos. Ele nos torna responsável somente por um ser: nós mesmos, portanto filha, trate de cuidar do que Deus lhe deu, com todo seu amor e carinho, porque sua alma é seu maior tesouro e cabe a você única e exclusivamente a missão de ser FELIZ, pois no final de toda nossa história, só levaremos conosco o que construímos durante nossa existência.

Assim, depois de tantas perguntas e respostas que me mostraram o quanto eu ainda tenho de lutar, principalmente contra mim mesma para me tornar melhor, desliguei o telefone e fui pedir perdão para Deus novamente, pelas minhas Sandrices... 

Você quer saber do meu pai?  Bom, ele continua por ai, espalhando suas loucuras...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

2712 dias

Celso, hoje faz 6 anos que nos casamos,
e a cada dia te amo mais.
















Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento  
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto 
Que mesmo em face do maior encanto 
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento 
E em seu louvor hei de espalhar meu canto 
E rir meu riso e derramar meu pranto 
Ao seu pesar ou seu contentamento 

E assim, quando mais tarde me procure 
Quem sabe a morte, angústia de quem vive 
Quem sabe a solidão, fim de quem ama 

Eu possa me dizer do amor (que tive): 
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes) 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Helena Kolody

Recebi hoje na biblioteca pública o exemplar de lançamento da nova revista da Secretaria de Cultura do Paraná, seu título é "Helena". O nome e o porte elegante da publicação me chamou a atenção pela beleza do design gráfico moderno e cheio de estilo. Uma publicação de altíssima qualidade tanto gráfica quanto literária.

Pude apreciar a história e um pouco do trabalho da poetisa Helena Kolody que não conhecia, mas me apaixonei, leiam que lindo:

Prece
"Consede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser de coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas,
E tira d'alma alheia o espinho que magoa."


(Helena Kolody • 1912 - 2004)

Se quiser ler mais a Revista está disponível na Biblioteca Municipal e mais informações sobre Helena no site: Releituras.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

11 anos de Elis...


Aos oito meses de gravidez
Eu estava dividida entre duas faculdades e um trabalho de designer gráfica quando soube que seria mãe em breve. Foi um susto! Apesar de já estar com 29 anos, achei que a maternidade ia demorar a chegar.

Mas a Elis tinha pressa... A vida foi mais forte, mais corajosa e se sobrepôs aos meus desejos, anseios e assim, a Elis chegou.

Lembro como se fosse hoje, passei meses tentando adiantar meus trabalhos para o período que eu ficaria sem poder trabalhar. Durante os nove meses de gravidez trabalhei o equivalente a três anos em casa, uma loucura! E por tanto trabalhar me esqueci de aprender a ser mãe.

Mas é incrível, pois apesar de eu não ter me preparado, quando você nasceu, algo em mim mudou e mudou de uma forma tão linda, tão vibrante que simplesmente eu não podia deixar de sentir: eu agora era mãe, mãe da Elis!



Assim que você nasceu a médica te trouxe, aproximou você de mim e eu senti o calor do seu rostinho. Foi tão lindo, nunca vou esquecer este nosso primeiro contato, nosso primeiro olhar... E assim Elis chegou e ficou pra sempre no meu coração e na minha vida.

Tem dias que ela me beija, me abraça, diz que me ama, nesses dias é fácil ser mãe. Tem dias que ela me odeia... Briga comigo, me dá bronca, me põe de castigo, finge que não me ouve. Nesses dias é difícil ser mãe. 

Mas difícil mesmo é ficar sem Elis.

Às vezes me pergunto como pude viver 29 anos sem a Elis e às vezes me pergunto também como serão meus próximos 29 anos com a Elis (risos).

Elis caixinha de surpresas, de sorrisos e brincadeiras. Elis caixinha de música, de lágrimas e bombons.
Elis, Elis, Elis, eu só quero te ver feliz.

Perdoe a mamãe que é louca, meio atrapalhada e cheia de defeitos. Muitas vezes sei que erro que exagero, passo do ponto, mas é tudo por amor. Amor demais.

Você é minha melhor amiga, minha companheira dos dias em que eu descobri o que era solidão, a amiga que não me deixou, que não me criticou e não me cobrou, mesmo quando eu te tirei do seu mundinho, da sua vidinha você me acompanhou com um sorriso nos lábios e foi minha companheira de aventuras sem reclamar um dia sequer... 

Por este motivo acho você uma pequena heroína e hoje agradeço a Deus por ter colocado você em meu caminho e no meu viver. Você me ajuda a crescer e a querer ser melhor sempre...

11 anos é só o começo de uma nova fase. Agora tudo começa a mudar e vai mudar muito rápido, você vai ver.

Daqui a muitos anos, quando eu estiver bem velhinha e caduca, quero que você leia este texto e lembre da sua mamãe quarentona que tanto te ama e lhe deseja uma vida linda cheia de luz, amor e paz, minha filha, também meu grande amor.

Feliz Aniversário Estrelinha.

 Amigas




sexta-feira, 25 de maio de 2012

Eu sei...

Estou muito ausente... Tão ausente que nem para comemorar meus 40 anos escrevi. 

Não é falta de inspiração, é falta de vontade mesmo.

Tenho andado muito introspectiva, mas isso faz parte da vida. Há momentos em que é melhor calar mesmo. 

Afinal, falar o quê? E para quem quando temos a certeza de que ninguém nos ouvirá. 

Meu mundo hoje é um silêncio total. 

Melhor assim...

Hoje li dois textos que gostei muito, compartilho aqui:


O homem medíocre - José Ingenieiros

"O homem medíocre que se aventura nos torneios sociais tem um apetite urgente: o êxito. Não suspeita que exista outra coisa, a glória, ambicionada apenas pelos caráteres superiores. O êxito é um triunfo efêmero, pequeno; a glória é definitiva, não se altera com o passar dos séculos. Um é mendigado; a outra, conquistada.

É desprezível todo cortesão da mediocracia em que vive. Triunfa humilhando-se, arrastando, às escondidas, na sombra, disfarçado, escorando-se na cumplicidade de inumeráveis semelhantes. O homem de mérito se adianta a seu tempo, tem seu olhar posto em um ideal. Impõe-se dominando, iluminando, fustigando, em plena luz, sem máscaras, sem humilhar-se, alheio a todos os disfarces do servilismo e da intriga.

A popularidade tem seus perigos. Quando a multidão crava os olhos pela primeira vez em um homem e o aplaude, a luta começa. Pobre de quem se esquece de si mesmo para pensar apenas nos outros. É preciso colocar mais distantes a intenção e a esperança, resistindo às tentações do aplauso imediato. A glória é mais difícil, porém mais digna.

(…) O homem excelente pode ser reconhecido por ser capaz de renunciar a todo cargo que tenha como preço uma partícula de sua dignidade. O gênio se move em sua própria órbita, sem esperar sanções fictícias de ordem política, acadêmica ou mundana.

(…) Quem flutua na atmosfera como uma nuvem sustentada pelo vento da cumplicidade alheia, pode abocanhar pela adulação o que outros deveriam receber por suas aptidões. Mas quem obtém favores sem méritos não deve ficar tranquilo: fracassará depois de cem vezes, em cada mudança de vento. Os nobres criativos só confiam neles mesmos; lutam, livram-se dos obstáculos, se impõem. São próprios seus caminhos. Enquanto o medíocre se entrega ao erro coletivo que o arrasta, o superior vai contra ele com energias inesgotáveis até tornar clara sua rota."


Louco e Santos - Oscar Wilde
 
"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
 
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim

Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo,quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril."

sexta-feira, 30 de março de 2012

Sinto vergonha de mim...

Compartilho aqui um vídeo do Rolando Boldrin declamando o poema de Cleide Canton, ele diz muito do que sinto hoje. A sinceridade das palavras chega a cortar a alma...

(*) "De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto".

*Trecho escrito por Ruy Barbosa

quinta-feira, 22 de março de 2012

Chefe... ”Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”

Equipe Unesc • 2006






















 “Um diamante mesmo enterrado no lodo, continua um diamante.” 

Outro dia li esta frase em um livro e ela ficou guardada em minha mente, pois transmite na sua simplicidade uma mensagem muito importante, porque em muitas circunstâncias da vida, deixamos de acreditar no que verdadeiramente somos.

Relembrando fases diferentes da minha vida profissional, fazendo um “mini-flashback” como dizia aquela atriz, pude perceber o quanto progredi nesses últimos anos e o quanto aprendi no dia a dia, mesmo vivendo numa cidade pequena e onde aparentemente não iria encontrar muitos desafios. Ledo engano...

Meu primeiro emprego foi numa galeria de arte, eu era uma aprendiz de “marchand” tinha só 17 anos, foi um experiência e tanto. A artista muito excêntrica pintava quadros maravilhosos e eu tive neste emprego minha primeira grande lição: como é bom ter um lar, para onde se possa voltar após um dia muito duro de trabalho. Lembro de um dia que cheguei tão estafada em casa de tarde que deitei no sofá e lá adormeci profundamente, um sono tão pesado que não senti meu pai carregar meus 1,75m e quase 70 kg nos braços e quando acordei no outro dia de manhã estava na minha cama, debaixo das cobertas de tênis e carteira no bolso... Acho que foi a última vez que meu pai me carregou no colo, rs Depois deste vieram alguns outros empregos, vou relatar aqui os que mais me marcaram.

Primeiro num departamento de criação em um laboratório que tive oportunidade de ter um chefe maravilhoso, o Sidney que percebeu talento gráfico em mim e me incentivou a ir estudar Artes Gráficas no Senai Theobaldo de Nigris e lá na melhor escola de Artes Gráficas do Brasil, pude adquirir conhecimentos importantes que apliquei também no meu curso de biblioteconomia. Hoje eu cuido de livros, lá aprendi a produzir livros. Muito obrigada Sidney, onde quer que você esteja.

Depois de formada passei por alguns bureaus de pré-impressão onde fui diagramadora e posteriormente consegui uma colocação numa editora de revistas. Lá fiz bons amigos, Sueli ilustradora talentosíssima e meu querido Emmanuel dono da editora, uma pessoa boníssima e extremamente divertida. Eu achava incrível o fato dele ser nosso chefe e simplesmente não parecer um chefe e ao mesmo tempo era respeitado, querido e amigo de todos.  Neste emprego aprendi que você pode ser chefe e ser leve e divertido ao mesmo tempo em que trabalha.

Depois desta editora passei por um progresso acentuado quando consegui um trabalho em um estúdio de arte muito promissor em São Paulo. Este estúdio estava crescendo e trabalhava com grandes clientes, multinacionais e só usava plataforma Macintosh. Foi o período onde tive mais contato com o Designer gráfico e pude após este tempo, trabalhar alguns anos como autônoma, em meu próprio estúdio. 

Foi só um ano, mas acho que foi o lugar onde tive, antes de sair de São Paulo, meu maior aprendizado para a vida profissional. Pra começar esta história, lembro o dia da entrevista, eu sentada em frente ao computador com uma página para criar e minha entrevistadora ao meu lado me explicando o que queria. Quando ia começar, uma porta se abriu e uma criança de uns três anos veio em nossa direção e sentou-se no meu pé e eu tentava prestar atenção na minha entrevista.

Quando comecei a diagramar vi o menino enroscado no meio dos fios e virei para a moça e falei: “ele vai se machucar!”. Ela me olhou e respondeu assim: “cuida da sua entrevista que do meu filho cuido eu!”.

Eu, não sabia onde enfiava a cara de tanta vergonha e só pensei: nossa, como pode ser tão grosseira... Fiz meu teste, fui bem, mas sinceramente não achei nem um pouco interessante ir trabalhar lá depois do fato ocorrido já na entrevista.

Voltei para casa e continuei minha busca até que um mês após o teste me chamaram deste mesmo estúdio para trabalhar, se ainda estivesse disponível. Como já estava há quase dois meses procurando emprego e a oportunidade no estúdio muito boa em termos de experiência profissional e salário, esqueci o ocorrido e fui trabalhar.

Neste estúdio conheci boas pessoas e tenho uma linda amiga com a qual até hoje me correspondo e que amo de todo meu coração. Mas após um ano de trabalho nesta empresa o que mais pude interiorizar e aprender, para toda minha vida, é o que eu NÃO deveria ser quando fosse responsável pelo trabalho de alguém.

Eu pela convivência com vários profissionais de muita capacidade e talento, aprendia elementos importantes para a profissão de designer, ao mesmo tempo infelizmente, tive uma colega de trabalho que me deixou em situações tão constrangedoras que hoje rememorando, não sei como eu consegui sobreviver e tirar ainda assim, algo de bom deste período da minha vida profissional.

Para ter uma ideia um dia, ela me apresentou a uma importante executiva de uma multinacional, cliente do estúdio, usando a frase: “esta é a Sandra, a macumbeira da equipe”, só porque ela sabia que minha família era Kardecista.

Na festa de confraternização no final do ano ela na mesa com todos os funcionários reunidos me gritou lá do canto onde estava dizendo assim para mim: “Sandra, come esse carpaccio que o garçom está servindo, pois lá da zona leste de onde você vem, não tem essas coisas!”.

Uma ocasião (isso até seria cômico, se não fosse trágico) ela virou para mim e disse assim: "sabe qual é o seu problema Sandra, seu problema é que você é feliz demais!".

Meu Deus... Ela me falava tantas barbaridades, mas eu só focava no fato de ter acabado de entrar na faculdade de biblioteconomia que era particular e, em outras várias responsabilidades e o salário deste emprego era excelente, eu pensava no dinheiro, me acalmava e prosseguia. Foi um ano de muita resignação e exercício de paciência...

Um dia ela me pegou para me passar um sermão na sala dela, ficou três horas seguidas falando sem parar, tantas barbaridades que eu chorava igual uma criança e em um determinado momento ela falou assim: “não esquenta não, eu entendo que você ainda não tem maturidade e por isso é normal você chorar assim na frente da sua chefe!"

Nesta empresa passei por tantas situações tristes e desagradáveis que voltando no tempo e rememorando os fatos para poder relatar "algumas coisinhas" aqui, chega a apertar o coração de tanta dor. A verdade é que eu deveria tê-la processado por perdas e danos morais. Mas naquela época eu ainda era muito inexperiente, tinha pouco mais de vinte anos e não era amplamente divulgado o que atualmente chamam de "assédio moral".

Nos últimos meses quando o despertador tocava de manhã, eu abria os olhos e pensava que tinha de ir para lá, meu estômago até revirava e meu coração apertava no peito, mas eu levantava...

E por ai vai... Foram tantas, mas tantas tristezas que passei neste lugar que quando completei um ano e já sonhava com as férias queria descansar minha cabeça, mas aconteceu de ter de ir trabalhar num sábado, para compensar uma falta, mesmo sem trabalhos atrasados, mas por convocação da “minha chefe” fui. 

Logo que cheguei ela veio passar os trabalhos que queria que eu fizesse e foi embora, depois de umas duas horas voltou e começou a me destratar sem motivação aparente, colocava defeito em tudo que eu havia feito, mas fazia isso de uma maneira muito mais estranha do que já era habitual, parecia que ela estava procurando confusão e eu mesmo assim, mantive como sempre a paciência. Neste um ano, nunca, nunca a enfrentei de forma alguma.

Só que ela permaneceu me atacando e em um dado momento, não resisti mais e empurrando a cadeira num chute só  me aproximei bem dela que era baixinha e perguntei: “minha filha, o que você tem afinal contra mim?”

Acho que todos os sapos de um ano lá que engoli vivos e viviam rolando em minha barriga resolveram sair todos ao mesmo tempo e eu cuspi todas as respostas que eu queria ter dado a ela no ano todo em que ela me torturou. Falei tudo que eu pensava e achava dela, falei meia hora sem parar, devolvi todo o lixo que ela tinha jogado em mim e disse que ela era uma “monstra” (risos).

Bom, depois disso nem preciso dizer que fui sumariamente demitida...

Eu voltei triste para casa, chorei o caminho todo e o fim de semana também pensando em como eu ia ficar sem meu emprego e como eu ia continuar minha amada faculdade se não conseguisse logo outro trabalho.

Mas na segunda-feira, quando o relógio não despertou, mas eu sozinha abri os olhos e lembrei que não ia precisar ir trabalhar lá, dava cambalhotas e gargalhadas deitada na minha cama e esta acho que foi a segunda-feira mais feliz da minha vida (risos).

Quando saí deste pesadelo prometi para mim mesma que, se algum dia eu chegasse a ser chefe de algum setor, ou empresa, nunca seria como esta minha ex-chefe.  Lá aprendi tudo que eu NUNCA deveria ser com meus colegas de trabalho.

Uma semana depois eu já tinha conseguido outro emprego muito legal, de meio período. Fiz outro vestibular, passei. Estudava Biblioteconomia de manhã, trabalhava à tarde no novo estúdio e cursava faculdade de Educação Artística à noite.

Minha situação melhorou e muito ao invés de piorar como eu pensei inicialmente... Ao invés de fazer uma eu estava fazendo duas faculdades. Como diz aquela música: "muitos temores nascem do cansaço e da solidão". Espero nunca mais ter de lembrar ou pensar sobre esta experiência...

Muito tempo se passou... 

Me formei, tive pequenas experiências em Bibliotecas em São Paulo e meu primeiro grande emprego como Bibliotecária formada foi no Unesc de Colatina. 

Posso dizer sem sombra de dúvidas que lá foi a experiência de trabalho mais feliz que tive na minha vida. A equipe de trabalho da biblioteca universitária era composta por dez pessoas para eu coordenar e eram todos rapazes. Eu trabalhava com dois assistentes, um menor aprendiz, dois estagiários e cinco auxiliares. A biblioteca era enorme, com diversos ambientes e mais de 50 mil livros no acervo e a rotina diária de atendimento era de cerca de 1.000 universitários nos três turnos.

Tive muita sorte, pois as pessoas com que trabalhei foram muito generosas e prestativas e eu retribuí a acolhida, procurei ao longo deste ano mais ensinar e mais aprender que “mandar”.

Eu não tinha subalternos, eu tinha colegas de trabalho, uma equipe de pessoas muito interessadas e com desejo de progredir. Muitos faziam serviços mecanicamente, pois não haviam explicado para eles os motivos de isso, ou aquilo, ser dessa forma na biblioteca eu passei a explicar os detalhes, procurei melhorar o acesso deles aos elementos que faziam parte de suas atividades e eles puderam entender o porque deles terem de realizar certos procedimentos. Os serviços passaram a ser assimilados, eram atividades compreendidas e não mais meramente mecânicas.

Com eles eu também aprendi muito, procurei dar oportunidade para todos falarem, sugerirem, aproveitei boas ideias dando crédito ao autor das mesmas, elogiava para meu superior minha equipe e pedia sempre que era possível, melhorias para as condições de trabalho deles.

Trabalhei muito, passei alguns apertos, dei muitas risadas, tive muito orgulho do que deixei lá, pois no dia que me despedi do meu diretor, ele me disse que nunca havia passado por lá uma Bibliotecária como eu, que tinha feito um excelente trabalho e que ele sentia por eu ter de deixá-los. Me senti muito orgulhosa do meu trabalho e feliz pela missão cumprida.

Tenho saudades até hoje dos meus amigos do Unesc, nunca devia ter saído de lá, mas essa...
É outra longaaaaa história para contar outro dia...